Indicadores de Desempenho no Transporte Público

Indicadores de Desempenho no Transporte público
Foto: Victor Moriyama. WRI Cidades.

Caros amigos e amigas,

Posso chamá-los assim, afinal, estamos ficando íntimos e tivemos uma boa caminhada até chegarmos a esse tema tão importante e essencial. Esse é o cara que vai te dar uma diretriz, um norte para a tomada de decisão após a operacionalização e retorno sobre resultados e investimento.

Vejo os indicadores de desempenho em uma empresa de forma análoga com as seguintes referências: manteiga do pão, cereja do bolo, goiabada do queijo, semente da fruta, “mana da vida”. Exageros à parte, esse cara vai apontar para ti os erros e acertos da coisa toda e, por esse motivo, é o nosso penúltimo tema a ser abordado, espero que seja um tema que fique registrado em sua trajetória no mundo corporativo e que o manuseio desses dados lhe faça um profissional com uma bela carreira, afinal quer conhecer uma empresa e dominar suas estratégias independente do ramo de atuação? Comece pelos indicadores de desempenho… Vamos ao conceito:

Os indicadores de desempenho podem ser definidos, segundo SANTOS (2004), como um instrumento capaz de proporcionar a compreensão de um dado fenômeno, oferecendo informações ou até um entendimento ampliado do mesmo fenômeno, tudo isto de forma simplificada, compreensível e comparável.

Conforme SANTOS (1994), os indicadores devem ser viáveis e práticos, apresentando duas características especiais:

•          Adaptabilidade: a capacidade de se adaptarem às diversas mudanças nas exigências dos clientes, pois ao longo do tempo os indicadores podem perder sua utilidade e consequentemente serem eliminados rapidamente.

•          Representatividade: a capacidade em evidenciarem etapas críticas e importantes dos processos, para que, de forma satisfatória, sejam representativos e abrangentes.

Indicadores de desempenho são classificados da seguinte forma:

  1. Índice: tudo aquilo que representa ou atribui algum valor ou aspecto importante do que se analisa.
  2. Coeficiente: propriedade que possui condições que permitem uma avaliação numérica.
  3. Taxa: é definida como a relação entre grandezas.
  4. Parâmetro: é uma variável ou constante que apresenta funções específicas e diferenciadas das demais variáveis.

Além disto, existe as formas de visualização de indicadores, como gráficos, tabelas, dados absolutos e dados relativos.

Bom, até aqui tranquilo. Você já sabe o conceito de indicadores, agora vamos tratá-los no âmbito do transporte público de pessoas.

Uma empresa de transporte público tem diversas áreas e setores que mantêm a engrenagem organizacional girando, porém existem três grandes áreas que estão ligadas diretamente com a força motriz empresarial e que a efetividade de suas ações são acompanhadas constantemente para que não haja grandes desvios que possam desacelerar o bom andamento da oferta e demanda, são eles: Planejamento, Operação e Manutenção.

Planejamento

O Planejamento tem como atribuições fazer levantamentos estatísticos baseados em dados anteriores, analisar, projetar e estipular metas, dimensionar programações de linhas, dimensionar a necessidade de pessoal operacional (Escala de Funcionário), tipo de tecnologia (Frota) a ser alocado na linha, fazer com que, baseado em OSO (Ordem de Serviço Operacional), seja cumprido pelo setor de operação e, se caso for inviável cumprir, negociar propostas de melhorias junto ao órgão gestor para suprir as necessidades dos usuários e clientes e as necessidades da organização. Tem como atribuição controlar os custos e índices de rentabilidade, e os dados estatísticos e indicadores que comprovem a viabilidade das linhas. Vamos abordar alguns indicadores importantes da área de planejamento:

  • Total de Passageiros Transportados: O indicador TPT expressa o somatório dos passageiros transportados durante o mês analisado, considerando sua totalidade de dias. É um índice expresso em algarismo e, quanto maior for o status do mesmo, melhor, pois demonstra a evolução da demanda. Segue o cálculo:
  • Média de Passageiros Transportados Dias Úteis: O indicador MPTU expressa a média aritmética de passageiros transportados nos dias úteis durante o mês analisado. Assim, considera o somatório de passageiros em dias úteis divido pela somatória da quantidade de dias úteis do mês. É um índice expresso em algarismo e, quanto maior for o status, melhor, pois demonstra a evolução da demanda. Segue o cálculo:
  • Média de Passageiros Transportados no Sábado: O indicador MPTS expressa a média aritmética de passageiros transportados nos dias de sábado durante o mês analisado. Assim, considera o somatório de passageiros em dias de sábado divido pela somatória da quantidade de dias de sábado do mês. É um índice expresso em algarismo e, quanto maior for o status, melhor, pois demonstra a evolução da demanda. Segue o cálculo:
  • Média de Passageiros Transportados no Domingo: O indicador MPTD expressa a média aritmética de passageiros transportados nos dias de domingo durante o mês analisado. Assim, considera o somatório de passageiros em dias de domingo divido pela somatória da quantidade de dias de domingo do mês. É um índice expresso em algarismo e, quanto maior for o status, melhor, pois demonstra a evolução da demanda. Segue o cálculo do indicador:
  • Índice de Passageiros por Quilômetro: O indicador IPK expressa a relação entre a quantidade de passageiros transportados no mês e a quilometragem percorrida. É expressa em algarismo e, quanto maior for o seu status, melhor, pois afere o nível e quantidade de passageiros por quilômetro percorrido, evidenciando a efetividade operacional e a capacidade de transformar custo em retorno financeiro. Segue o cálculo:
  • Receita por Quilômetro: O indicador RPK expressa a relação entre a receita operacional do mês e a quilometragem percorrida. É expressa em algarismo e, quanto maior for o seu status, melhor, pois indica, a cada quilômetro percorrido, o quanto de receita é gerada na operação. Com esse cálculo simples é fácil analisar o nível de rentabilidade da organização e também se a receita está nivelada, acima ou abaixo dos custos fixos e variáveis, por quilômetro. Segue o cálculo:
  • Receita por Veículo: O indicador RPV expressa a relação entre a receita operacional do mês e a quantidade de veículos operacionais escalados no mês, conforme programado e realizado. É expressa em algarismo e, quanto maior for o seu status ,melhor, pois indica a eficiência da frota e o aproveitamento de cada veículo. Segue o cálculo:
  • Quilometragem Rodada por Mês: O indicador KM expressa o somatório da quilometragem rodada durante o mês analisado considerando sua totalidade de dias. É um índice expresso em algarismo e, quanto menor ou igual for o status, melhor, pois demonstra a utilização correto da operação, seguindo o programado e seguindo os custos projetados para o mês, não ultrapassando as metas. Segue o cálculo:
  • Fator de Cumprimento de Viagens: O indicador FV avalia a confiabilidade do serviço prestado, levando em consideração a quantidade de viagens programadas e o que foi realizado, demonstrando a eficiência e eficácia da operação em cumprir a programação gerando resultados e qualidade no transporte. No caso, FV é a relação entre viagens realizadas dividido por viagens programadas vezes cem. É um índice expresso em percentual e, quanto maior for o status, melhor, pois demonstra cumprimento de metas. Segue o cálculo:
  • Rentabilidade do Capital Próprio: O indicador RCP indica a rentabilidade do capital próprio, isto é, o retorno do lucro líquido sobre o investimento realizado, levando em consideração o somatório do lucro líquido do mês antes do imposto de renda dividido pela média de investimento realizado no período de exercício. É um índice expresso em percentual e, quanto maior for o status, melhor, pois demonstra o nível de respostas do negócio da empresa em razão os investimentos realizados. Segue o cálculo:

Operação

A Operação é o processo final do preparo interno dos setores de planejamento que vai fomentar o que será realizado na rua, todo o cronograma a ser cumprido e a manutenção que irá preparar os veículos para serem disponibilizados à operação que, por sua vez, tem o objetivo de tirar do papel todo esse planejamento e trabalho interno para colocá-los em funcionamento. Para que isso seja feito da melhor forma possível, o objetivo da operação é atender o cliente com excelência, mantendo regularidades, um serviço com qualidade é fator de vital importância e confiança.

A operação conta com uma equipe de campo e fiscalização, que faz esse acompanhamento, preparando relatórios, administrando as saídas de veículos dentro do horário pré-estabelecido pelo Planejamento, entre outros. Tudo que não ocorrer conforme o programado é reportado ao controle de operação para poder registrar as inconformidades, acidentes, trânsito e tudo que possa gerar desvios do planejado, isto servirá como dados históricos para o futuro. Vejamos alguns indicadores importantes dessa área:

  • Turn Over: é a medição da rotatividade de funcionários da empresa. Este cálculo é útil e muito importante, sendo utilizado a fim de aferir se as medidas de retenção de funcionários e talentos têm sido efetivas, além de poder analisar a satisfação dos funcionários quanto as condições da empresa e suas expectativas. Ele é calculado a partir da divisão do total de demissões e admissões divido por 2, seguindo da divisão da soma de empregados no início do mês, conforme segue:
  • Índice de Reclamações: consiste em uma medição de satisfação dos clientes e usuários de uma linha, ou do geral, em relação ao serviço prestado pela empresa. Essas reclamações são registradas pelo órgão gestor e direcionadas para empresa ou registradas por meio de reclamações diretas dos usuários com a empresa, neste caso as informações são recebidas pelo SARC (Serviço de Atendimento de Reclamações do Cliente) e, assim, direcionadas ao setor. Seu cálculo é realizado por meio da divisão do número de reclamações pelo número de passageiros transportados no período, seguindo da multiplicação por 1 milhão. Segue o cálculo:
  • Frota em Operação: este indicador corresponde ao total de veículos que operaram em um dado período. Esta informação é utilizada pela empresa como base para análise da variação do número de veículos na frota e também como variável aplicada para outros cálculos dos demais indicadores da empresa. Segue o cálculo:
  • MKBF (Mean Kilometer Between Failure), ou “Quilometragem Média Rodada entre Falhas ou Avarias” Operacional: é a média de falhas operacionais por quilômetro rodado em um dado período. São consideradas “falhas operacionais” todo tipo de interrupção operacional. Este indicador tem como objetivo apresentar a frequência por quilômetro percorrido de interrupções na operação, e seu cálculo tem como base o total da quilometragem rodada dividido pelo total de falhas operacionais ocorridas em um período. Segue o cálculo:
  • Atestado: Consiste em dois índices: o total de atestados por pessoas (1) e a soma total dos dias de atestados por pessoas (2). Ele é importante para controlar o total de atestados e sua variação para cada período, funcionando como ferramenta para apontar problemas nas condições que os empregados trabalham e o nível de saúde e controle de funcionários. Segue os cálculos:
  • Faltas: consiste em dois índices: o total de pessoas em falta não justificadas (1) e a soma total de dias de faltas por pessoas (2). Este indicador é utilizado pela operação como ferramenta que permite analisar o aumento ou diminuição do absenteísmo, sendo importante para a introdução de medidas que venham corrigir aumentos neste indicador. Seguem os cálculos:
  • Multas RESAM (Regulamentações e Sanções de Multas): é o controle de multas e sanções sofridas pela empresa por causa de infrações cometidas na operação por funcionários na direção e infrações nos terminais, sempre apontadas pelo Órgão Gestor, sem vínculo com multas do DETRAN. Este índice é de grande importância para o setor, sendo que a empresa corresponde ao total de multas aplicadas aos funcionários, demonstrando o nível e qualidade na direção dos mesmos. O aumento neste indicador aponta para o crescimento nas irregularidades cometidas, o que exige medidas mais rigorosas na fiscalização operacional. Segue o cálculo:

Manutenção

A principal atividade da Manutenção consiste na disponibilidade do veículo para atender a área da Operação, pois essa área é considerada como o cliente interno do setor de manutenção, ou seja, o primeiro foco é disponibilizar veículos em perfeitas condições, por custo baixo e segurança.

As funções do setor se resumem no “Tripé da Manutenção”, que é analisar, dimensionar e colocar na prática o plano de manutenção preventiva a fim de conseguir diminuir a manutenção corretiva, que são as quebras inesperadas, e para que seja capaz de manter a melhor relação de custo/benefício de aplicação de peças e insumos com base na manutenção preditiva. Segue alguns indicadores da área:

  • Combustível Consumido: é considerado a segunda maior conta de despesa da empresa depois da conta de folha de pagamento. Esse indicador é considerado o de maior representatividade para a Manutenção. Para que o indicador esteja dentro de índices acertados é necessário trabalhar a regulagem dos veículos, o controle da aplicação do combustível em cada carro e realizar o acompanhamento das médias consumidas. O cálculo divide o total de quilometragem percorrida pelo combustível consumido dentro de um período. Segue:
  • MKBF (Mean Kilometer Between Failure) “Quilometragem Média Rodada entre Falhas ou Avarias” Manutenção: é o índice de quebra da frota por quilômetro. Para obter esse resultado, o MKBF reúne o total de quebras que são subdivididas em SOS, que ocorre quando é disponibilizado um mecânico para ir até o ônibus que está quebrado ou quando ocorre uma recolhida anormal (RA), que se caracteriza pelas ocorrências fora do programado. Portanto, para se obter o MKB é feita a divisão da quilometragem total percorrida pelo somatório de SOS e RA, o qual vai definir com precisão a qualidade da Manutenção, pois ele é diretamente proporcional à manutenção preventiva e preditiva. Segue o cálculo:
  • Custo por Quilômetro: este indicador é composto por quatro tipos de custos variáveis gerados pela manutenção, eles são:
  1. Custo de combustíveis, que é a soma de todos os tipos de combustíveis consumidos na operacionalização, somado os seus custos e dividido pela quilometragem;
  2. Custo de peças por quilômetro, ao final de todo mês é realizada a somatória de todas as peças, custos de funilaria, de pintura, de suspensão, de LED, de sistemas de freio, de sistema do trem de força que é composto basicamente pelo motor, câmbio e diferencial, fazendo uma somatória de todos esses custos e dividindo pela quilometragem;
  3. Custo do óleo lubrificante, o qual tem o seu cálculo similar ao do custo de peças, somando o total do custo com óleo lubrificante e dividindo pela quilometragem rodada. Quando se fala a respeito de óleo lubrificante, englobam-se os óleos de motor, câmbio e diferencial.
  4. Custo de rodagem, que é o custo por quilômetro de pneus, entendendo como compra de pneus novos, recapagens e consertos externos, quando apresentar maior proporção, e consertos internos, quando apresentar menor proporção. Seu cálculo é feito pelo levantamento do valor mensal dividido pela quilometragem.

Esse indicador demonstra a oscilação com valores gastos e direciona à análises possíveis como troca de fornecedor, mudança de marcas de produtos, entre outras informações. Segue o cálculo do indicador:

Segue exemplo de um painel indicativo:

Bom, agora você tem uma bagagem imensa para poder aplicar no transporte público, não tem? Acredito que conceitualmente sim, pois sabe dos números, dos controles internos… Administrativamente você está fera, pois já conhece os principais conceitos, mas como gerir tudo isso? Como liderar, articular e fazer a política da coisa? Gostinho de quero mais, né? Apareça no próximo artigo, camarada!

Abraços fraternos!

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Rafael Pereira

Rafael Pereira é formado em Logística pela FATEC e pós graduando em Projetos pela FGV. De São Paulo, atua há 8 anos no setor logístico e de transporte. É colunista do Agora é Simples.

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