Transporte público aprofunda desgaste de financiamento com pandemia de Coronavírus

Crise acende alerta no setor, que já vive declínio com tendências globais como envelhecimento da população e ‘home office’

Era um dia normal de trabalho para dona Neide, 57, na capital paulista. Embora atenta à situação de calamidade pública em que vive o país, seu trabalho numa padaria na região central da cidade a impede de exercer qualquer função remota “preciso continuar a trabalhar, mesmo com esse risco né”. 

Essa é a realidade de milhares de brasileiro que continuam a sair de suas casas mesmo contra recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde. Dona Neide faz parte de um contingente de milhões de brasileiros que podem se infectar no surto de Covid-19 que se alastra pelo Brasil. 

Desde que a crise começou, o transporte de massa é alvo de preocupação em relação à transmissão do vírus Covid-19, com intenso apoio das autoridades ao isolamento e ao chamado “home office”. A estratégia visa diminuir a circulação de pessoas e interromper o ciclo de infecção. 

Os vídeos linkados abaixo são do jornal americano Washington Post e mostram como o vírus circula quando as pessoas se locomovem normalmente versus com restrições de mobilidade e isolamento social. 

Combate à epidemia 

De início, a principal estratégia inicial tem sido as restrições de viagens internacionais, que diminui a contaminação de países atingidos em novas regiões e impactam milhares de voos e as finanças de companhias aéreas do mundo todo. Contudo, as viagens locais também são um espaço de circulação viral, seja por que há contaminação dada a proximidade de pessoas em vagões e ônibus lotados, como também por permitir a circulação de pessoas a outros lugares, aumentando a circulação do vírus. 

No Rio de Janeiro, o fluxo de pessoas dos trens da capital já diminuiu em 76 mil clientes segundo a Supervia, além de redução de 27% no número de passageiros do Metrô Rio no último final de semana, segundo sua administradora.. Já em São Paulo o trânsito da primeira segunda após medidas restritivas diminuiu de 86km para 49km. Ainda na capital paulista decreto do prefeito Bruno Covas prevê que a circulação de ônibus pode ser reduzida caso a demanda diminua bastante, o que deve acontecer paulatinamente nas próximas semanas. 

Segundo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) houve redução de 30% no fluxo de passageiros nos últimos dias, com esse percentual podendo chegar a 50% nas próximas semanas. 

Enquanto isso, o governo prevê socorro às companhias áreas que estão com intensas reduções de viagens e, por isso, correm o risco de quebrar. Entre as medidas brasileiras que podem ser adotadas estão: 

  • desoneração da folha: o gasto com salários deverá ser descontado da base do cálculo de PIS/Cofins. O valor que não for pago será quitado a partir de outubro;
  • crédito: linhas de longo prazo;
  • capital de giro: bancos públicos devem oferecer linhas de financiamento;
  • Pagamento das taxas de uso de aeroportos estendidas até o final do ano.
  • reembolso: passageiros que cancelam viagens serão reembolsados em 12 meses e não imediatamente, como acontece hoje.

O que não está claro é se o transporte público também receberá tais benefícios, uma vez que o Ministério da Saúde e os Estados intensificam as medidas restritivas de circulação e, com isso, empresas de transporte público sofrem tanto quanto companhias aéreas na redução de passageiros. Pessoas que nunca fizeram home office, agora o fazem, estudantes estão em casa e a população, em geral, começa a se isolar socialmente. Aqueles que não podem, como Dona Neide, cada vez mais começam a ser minoria. 

Problema estrutural do transporte público

O transporte público brasileiro é financiado principalmente pelas receitas tarifárias, mas esse modelo já está esgotado há algum tempo, como afirmam diversas entidades, como a NTU e a Frente Nacional de Prefeitos (FNP).

Como é um serviço essencial à vida urbana, o poder público detém bastante poder sobre o comissionamento das operadoras do transporte coletivo, controlando reajustes e garantindo que as passagens não subam a preços abusivos. Com isso, porém, num cenário de crise e redução drástica da demanda fica difícil manter as operações e garantir que, após a crise, as empresas estejam vivas economicamente para continuar a prestar seus serviços. 

Diferentemente da indústria de bens de consumo que pode ter uma leve recuperação com a demanda que estava reprimida no fim dessa quarentena que ainda não tem previsão, o transporte urbano, diferente até mesmo do rodoviário e do aéreo, não se recupera com o retorno das atividades normais, pois uma vez não transportado a receita está perdida. Aquele deslocamento não irá acontecer em um oportunidade futura.

Essa situação toda, além de maximizada pela queda de demanda na crise, expõe também um problema crônico de financiamento do transporte público e acende o alerta sobre tendências globais, como envelhecimento da população, trabalho informal e home office, que radicalizam neste momento e abre margens para fraturas no setor que podem não ter recuperação. 

Mobilidade também é sobre não se locomover

Iara Li, 27, designer no interior de São Paulo está em modo à distância no trabalho desde a última segunda, 16, “no dia tinha ainda 9 casos suspeitos ou menos aqui em Marília. Hoje já está com 28 casos suspeitos […] Estamos em home office por tempo indeterminado”. A profissional completa dizendo que sua jornada era completamente presencial até então “ia de ônibus e às vezes de 99”, finaliza. 

Assim como Iara, milhões de brasileiros experimentam pela primeira vez o trabalho à distância, embora trabalhar em casa com poucas ou nenhuma ida ao escritório já é realidade de 4,5 milhões de brasileiros, segundo o IBGE. Apesar da grande maioria desse percentual seja de trabalhadores autônomos, cerca de 3,9 milhões, os dados em si demonstram uma disposição do mercado e das pessoas em aceitar o trabalho remoto e garantir a geração de renda em suas próprias casas, tendência já registrada em âmbito global. 

Com a pandemia do Covid-19 o home office ganhou novos contornos no debate público, sendo radicalizado nesse momento de crise. 

O futuro do transporte público

A população está envelhecendo, a expectativa de vida brasileira chegou a 76 anos em 2017 (IBGE), aumento de 7,4% em relação ao ano 2000. Com esse aumento sobe também a demanda por gratuidades no transporte público, enquanto a porcentagem de jovens economicamente ativos só diminui. Somado a isso, o trabalho informal é cada vez maior. 

Por si só, essas duas situações já aumenta a pressão sob o financiamento do transporte público, pois com muitas gratuidades fica economicamente insustentável e o Vale-Transporte, importante fonte de receitas, é cada vez menos influente num mercado de trabalho informado.

Acrescente ao imbróglio desse modelo de financiamento baseado em tarifas o home office atrelado às tecnologias sociais, que aumenta nossa produtividade e diminui a necessidade de encontros presenciais, o famoso “essa reunião poderia ser um e-mail”. Tal perspectiva eleva o desafio do setor de transporte público no Brasil em buscar alternativas para sua sustentabilidade financeira, que vão além das tarifas e do subsídio público. Em tempos de coronavírus, a diminuição drástica de transportados nos sistemas urbanos de mobilidade só evidencia desafios urgentes para o setor com ou sem vírus.

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Antonia Moreira

Editora de Redação do Agora é Simples. Analista de Marketing na OnBoard Mobility. Mobilidade é uma de minhas paixões, compartilho aqui os melhores insights que encontro sobre o assunto. Me escreva: antonia@onboardmobility.com

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